Passado Presente

elisGuardo sempre os dias, às vezes os meses, mas os anos fogem da minha memória. Eu estava em Porto Alegre passando uns dias na casa de uma prima que conhecia todos os bares da cidade. Também não lembro direito dos bares. Era janeiro ou fevereiro de algum ano do dia 19. A mídia anunciava a morte de Elis Regina explorando com extremo mau gosto a sua última gravação, “Se eu quiser falar com Deus”, que invadia todas as rádios.

Naquela noite era impossível descontrair em qualquer lugar. Estávamos na terra de Elis e a sensação de perda parecia mais forte. Fizemos uma pausa dos bares e colocamos Elis para cantar, ainda em vinil, uma rosa na capa rosa. Essa Mulher.

De tardezinha essa menina se namora
Se enfeita, se decora
Sabe tudo, não faz mal
Ah, como essa coisa é tão bonita
Ser cantora, ser artista
Isso tudo é muito bom
E chora tanto de prazer e de agonia
De algum dia, qualquer dia
Entender de ser feliz

Eu não era cantora, talvez até fosse artista naquela época, mas chorei copiosamente me sentindo “a” mulher feita, lamentando a morte de alguém que parecia muito próxima a mim. Eu sempre tive muita dificuldade de chorar e estava no auge da minha adolescência.

***

Adoro dias chuvosos. Num deles, estava em casa meio à toa e uma amiga chegou pulando de alegria. Balançava dois ingressos da primeira fila para o show do Caetano, “Eu Sou Neguinha”, que ela tinha ganho de mão beijada, de um amigo que não poderia ir. Os dias de chuva sempre trazem surpresas boas, afinal.

Lá na primeira fila, vendo Caetano azarar o guitarrista e fazer a camisa de turbante rebolando a la neymatogrosso, o tempo parou para eu admirar tanta sensualidade. De repente, a luz sumiu e tudo ficou quieto. Ninguém ousava se mexer nem acender isqueiros inconvenientes. Caetano reaparece no centro do palco, ainda sem camisa, de cabeça baixa. Nunca ouvi aquela voz com tanta clareza:

Então tá combinado
é quase nada
não tem nenhum engano
nem mistério

A letra me atingiu em cheio. Isso foi bem antes de Bethânia gravar e deixar a coisa pesada com aqueles arranjos dor-de-cotovelo-até-o-joelho.

Mas voltemos a Caetano, à luz e àquela música quase mágica para mim. A memória seletiva de novo, que mesmo cantarolando só me deixa lembrar destes pedaços:

é tudo só brincadeira e verdade
Então tá tudo dito
E é tão bonito
E eu acredito
Num claro futuro
de música, ternura e aventura
Pro equilibrista em cima do muro.
Então não fale nada,
Apague a estrada
Que seu caminhar já desenhou

Naquele momento decidi que era hora de cometer a eutanásia em um casamento curto e sem filhos que vinha agonizando. A música não estava nem na metade e eu chorava protegida pelo escuro. Deste ano eu lembro bem. 1988. Mas esqueci o dia. Pois é.

Andei lembrando dessas músicas e dessas fases por estes dias, e em especial na noite de hoje. Floripa, Porto Alegre e seu famoso pôr de sol andam passeando pela minha cabeça. Daqueles tempos adolescentes e da primeira separação, algumas coisas não mudaram: penso até hoje que Elis canta para mim, ainda tenho dificuldade de chorar por pouca coisa e “entender de ser feliz” é uma constante.

E, talvez a mais importante: sempre chega um dia em que é preciso “começar de novo e contar comigo”…

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3 Comentários on Passado Presente

  1. Amiga!!! Lendo essas coisas lindas, veio a minha cabeca, como num filme, o nosso tempo de ELO…Qta saudade de tudo! Ate de qdo andavamos de carro um tempao sem falar…pois, pra que palavras se nos entendiamos num olhar…a amizade era tao grande que nao tinhamos que “puxar conversa”…rrrsss.Bons tempos aqueles!!!Querida…a gente te encontra na tua escrita!!! Continua a mesma…apos 20 e…anos!!!Ou melhor, continuamos!!!…rrss Bjs

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