onde não se responde

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Onde não se Responde, Claudia Letti, Ed Arte Clara, Rio de Janeiro

Ele lhe perguntou o que fazia com o que sentia por ela. “Guarda”, ela respondeu, com a simplicidade de quem sabe que estas coisas, quando simplesmente existem, não precisam de um alojamento, um lugar, um espaço definido.

Guarda, ela lhe disse, na esperança de que ele levasse seu conselho ao pé da letra, esperando ganhar tempo para encontrar o guardado mais tarde quando tudo fosse possível.

Guarda, assim, como quem não quer nada, como quem vai usar daqui um minuto, quando sair do banho, quando sair à rua, quando for dormir, quando amanhecer.

Guarda solto em cima da cômoda, à vista dos olhos, no meio de outras bugigangas e finge que ele nem toma tanto espaço. Ou guarda na primeira gaveta, embrulhado em um papel de seda (daqueles que envolvem a maçã de Caetano), no fundo, longe dos olhos, e mesmo que você não abra a gaveta saberá que está lá. Mas quando e se você abrir, o perfume que vier lá do fundo vai invadir o quarto, a casa, devolvendo ao coração aquele sentimento de pertencer.

Guarda, ela lhe disse, tentando lhe dizer tudo isso, mas pronunciou apenas “guarda”, como se uma única palavra pudesse produzir cenários perfeitos para guardar o que ele sentia por ela. Então, ele lhe perguntou “onde?” Depois de tudo que ela tinha lhe dito em uma palavra, que significava entrega, um sim, um “eu acredito”, ele lhe fazia uma nova pergunta.

Onde? E ela, sem querer saber de pedir, sem querer entender de sofrer, sem querer explicar que o que sentia por ele estava guardado, intenso, represado e inflamável, disse simplesmente: “se não tem espaço, joga fora”.

E nessa hora lembrou de Leminski:

Coração para cima – escrito em baixo: frágil


 

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Onde Não se Responde, Claudia Letti
Onde Não se Responde, Claudia Letti

 

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18 Comentários on onde não se responde

  1. O que me inquieta e me fascina nas tuas palavras sobre a vida é essa loucura lúcida entalhada, artesanalmente, nos seus significados. De uma magia encantadora, despojada e limpa, crias sinfonias com o que dizes e escreves, como se já conhecesses, preliminarmente todas as pautas e partituras. Recrias sentimentos, despertas emoções e tratas de situações tão humanas, permitindo assim o estabelecimento de um diálogo e de uma identificação reveladora de tanta humanidade e afeto, onde todos nós nos sentimos inseridos.

    Tuas palavras deixam de ser um registro gráfico para se transformarem em rito, em hino, sem a necessidade de interveniência de qualquer som ou de qualquer voz, para ser expressada, porque, simplesmente, já falam por sí só…

    Diante dos rastros dos teus signos e das tuas simbologias, eu me calo e te contemplo. Fico maravilhado, me emociono e estabeleço, contigo, através das tuas palavras, laços de cumplicidade.

    Sinto a tua presença e o teu olhar furtivo, que teimosamente tenta se disfarçar à toda hora, buscando novas formas se expressar teus sentimentos, Com tuas palavras, te traduzes e te dissimulas, Finges até mesmo não estares por aqui, neste mundo virtual, mas enrubesces quando do encontro de um olhar desprevenido.

    E entre leituras e releituras que faço das tuas letras, poderia te dizer mais só mais uma coisa e que fique apenas entre nós: ah… como eu compreendo as tuas entrelinhas, tuas reticências, tuas exclamações e interrogações. Ah…como eu compreendo !…

  2. Caríssima guardo em papel de seda, desde o lançamento de “Onde não se responde” e depois de muitos: sólido/líquido/
    /gasoso/sólido/…
    A propósito ouvi “Cry me a river” c/ Diana Krall e achei muito
    legal (vou remeter..), mas c/ Etta James é definitivo.

    Belíssimo jardim é Lettiânia.

    Até mais
    H31T02

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