Ilha Deserta

Nada deserto. Nem ruas, àreas, nada. Ilhas, muito menos. Sempre tive essa estranheza. Se é deserto, vou saindo de fininho, ou melhor, nem entro. Quando eu era criança tinha medo de acordar num mundo sem gente ou sem meus bichos de estimação. Medo de acordar samambaia (já pensou?) e nem por isso numa ilha deserta porque mesmo uma samambaia tem o direito de observar algum movimento que não seja apenas o da natureza.

ilha_desertaCecília Meirelles escreveu que numa ilha deserta é preciso encher o tempo e que ela levaria um dicionário, que ela batizou de “o livro da solidão”. Eu costumo brincar que levaria ‘Cem Anos de Solidão’, de García Márquez, porque somente numa ilha deserta eu conseguiria terminar esse livro. Mas, na verdade, acho que a maioria de nós entraria em pânico, sem concentração para livros ou explorações por água doce. Talvez por isso o seriado “Lost” tenha uma legião de telespectadores – porque queremos ver nosso lado desbravador, destemido e ao mesmo tempo pequeno e amedrontado em cada personagem ilhado, em cada ser humano perdido em/e na ilha e por isso mesmo, perdido em si mesmo.

Numa ilha deserta, seríamos obrigados a nos deparar com nossa nudez de alma, a ficar cara à cara com nossa ilha interna e nossas defesas mal disfarçadas iriam ser vistas quase a olho nú, as fobias viriam à tona, seríamos forçados a ser livres talvez, como disse Sartre, e sabemos que ser livre não é para amadores. E se, ainda segundo Sartre, o inferno são os outros, porque a maioria de nós está sempre à procura de outras pessoas e raramente em busca de um espaço deserto por este mundão de Deus? Talvez porque a nossa vã filosofia precise se sentir acompanhada, precise de calor humano, precise unir emoções e neuroses em seu instinto tribal.

Mas esse papo está parecendo uma daquelas viagens na maionese, já que a probabilidade de você ou eu irmos parar numa ilha deserta deve ser infinitamente menor do que ganhar na Mega Sena. Ou, pelo menos, quase tão absurda quanto a probabilidade de acordar samambaia. Até porque não existem mais ilhas com água doce que já não sejam habitadas. As ilhas desertas foram parar no mesmo limbo dos mundos encantados, onde as nossas fantasias programam a vida – ou o tédio dela. De todo modo, se for pra acordar samambaia um dia – a gente nunca sabe onde estão fundamentados nossos medos infantis – que seja na cidade, rodeada de movimento por todos os lados.

Crônica escrita especialmente para o http://www.morfina.com.br

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