Dá Licença? Posso Entrar?

Chego acompanhada da sensação de atraso que tentei deixar ali no hall de entrada. Não é exatamente uma sensação desconfortável mas, de todo modo, sempre fico com a impressão que perdi o melhor da festa, embora minha taça de champagne esteja gelada e borbulhante. Champagne, não mais coca-cola. Em algum momento nesses dez anos, depois de escrever aqui, no Crônica do Dia, categoricamente um “Obrigada, eu não bebo”, aprendi a bebericar espumantes. Dez anos é muito tempo pra pretender que a vida permaneça inalterada e muito pouco pra alterar tudo que se gostaria.

Há dez anos me mudei para o Rio, que me acolheu com a calorosidade dos seus 40 graus. Cheguei aqui apaixonada pela cidade e pelo amor chiado e gingado que ela me oferecia. Se não me engano, minha primeira crônica para o Crônica do Dia falava do meu espanto pela cidade grande e pelo fascínio que ela causava no meu, até então, cotidiano provinciano. Uma década parece ser tempo o bastante pra extrair do amor um amigo e amar de novo — com outro sotaque. Dez anos é tempo suficiente pra aprender uma cidade ou se perder nela.

Nesses dez anos, minha filha se transformou numa mulher enquanto eu ainda aprendo, todo santo dia, a ser menina. Ganhei três enteados, um deles já é um homem, dois ainda serão, no máximo, em dez anos. Alguns sonhos ganharam asas tão grandes que se perderam no imenso azul das expectativas e estão a voar tão alto que, duvido, aterrissem um dia. Outros, fiz questão de construir pistas largas e de comprimento confortável para que chegassem ao seu destino, que nem sempre ou necessariamente era até a mim. E alguns poucos sonhos, ainda cultivo com cuidado, como quem se agarra ao fio frágil de uma pipa colorida, deixando que voe solta, apenas pra não dar chance ao desencantamento.

Há dez anos (ou mais?) conheci pessoalmente algumas das muitas amigas que me acompanham desde então, inclusive aqui neste espaço. Durante esses dez anos fui a Fortaleza conhecer Eduardo (e Julia também!) e o abracei com o carinho de amigos de infância. Fiz amigos novos e continuei cultivando amigos de décadas. E se perdi alguns afetos foi por conta da reciclagem nata da vida que aproxima ou afasta caminhos à nossa revelia, mas — como nada é por acaso — guarda o sentido dos desencontros em seu código secreto.

Nunca fui muito amiga da permanência nem das retrospectivas, mas posso afirmar que dentre as muitas mudanças a que me atrevi e que a vida promoveu nestes dez anos, poucas coisas se mantêm e mantenho com frescor e alegria: os amigos, escrever para o Crônica do Dia e exercitar a inconstância — esta última talvez seja a responsável pela sensação de estar sempre chegando atrasada. Vai ver é por isso mesmo que, em várias situações da vida, eu me adiante por medo de ser tomada por decisões tardias.

champagneO que, definitivamente, não é o caso aqui e agora, vide meu atraso de quase um mês para a festa dos dez anos. Me desculpo e me conforto com uma boa dose de indulgência: afinal o que são alguns dias diante de uma década? E depois, sei que vocês hão de concordar comigo: festa boa é a que não tem hora pra acabar…

A propósito, ninguém vai abrir outra garrafa de champagne?


[Crônica comemorativa aos 10 anos do Crônica do Dia]

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