crônica [O Borogodó das Gordinhas]

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Monalisa, de Botero

Foi observando as amigas solteiras e insatisfeitas com a sua vida afetiva (ou melhor, com a falta dela), que comecei a abrir o leque do meu “observatório” para tentar entender por que pessoas tão bonitas quanto interessantes, e que buscam realmente alguém pra namorar, continuam sozinhas. E, enquanto fui listando mentalmente as solteiras e as namorantes, percebi que as amigas gordinhas parecem estar sempre acompanhadas. A bem da verdade, não é de hoje que tenho essa cisma, amplamente fortalecida pelos suspiros de algumas das magras que, a cada vez que enxergam uma roliça bem acompanhada, não escondem a frustração em frases brincalhonas do tipo “e eu aqui, com tudo em cima… sem ninguém”.

Diante deste quadro de Renoir, fui buscar uma paleta de homens variados para dar mais consistência à minha pseudoteoria, “entrevistando” 14 rapazes de diferentes faixas etárias e estados civis. A pergunta bedelhuda e sem rodeios “você namorou/casou ou namoraria/casaria com uma mulher gordinha?” rendeu 14 vezes sim, sem pestanejar. Nenhum dos “entrevistados” deixou de participar, parou pra pensar ou mesmo vacilou antes de responder. E todos, sem exceção, já namoraram ou casaram com mulheres gordinhas.

Então minha cisma não era totalmente infundada!? A segunda questão da “entrevista”, que era: ‘justifique sua resposta’, foi ainda mais produtiva. Alguns rapazes disseram que a mulher precisa ser bonita. Tá. E que há gordinha bonita e magra feia. Ok, até aqui não temos ainda nenhuma novidade. Outros arriscaram dizer que as gordinhas são mais sensuais e outros, ainda, responderam categoricamente que elas são mais simpáticas e menos chatas do que as magras, especialmente (e a ênfase é deles) as malhadas. Hum, começava o esboço de um perfil. Nessa questão, quatro dos rapazes sugeriram que, como não chamam atenção pelo corpo, as gordinhas usam de simpatia e, geralmente, de um sorriso bonito, para fazer o contrapeso favorável nessa balança. No placar, a palavra vencedora foi “gostosa”, e muitos deles afirmam que as gordinhas fazem tudo, “tudo mesmo” — segundo palavras de um dos moçoilos –, com mais prazer.

Lembrei de Botero, outro pintor que privilegia formas femininas roliças, para não dizer formas com evidente substância, que ilustra esta crônica com sua Monalisa, e que declarou: “É importante saber de onde provém o prazer de contemplar um quadro. Para mim, é a alegria de viver combinada com a sensualidade das formas.”

Então o sucesso das gordinhas é ter borogodó, é extrair da vida a alegria, os melhores sabores, seja de um prato de macarrão ou de uma dança do ventre? Pode ser. Prazer é uma palavra que combina com degustação e com calorias mesmo que o resultado seja uns quilinhos a mais. Quem se importa? Elas, as cheinhas, parecem não se importar e, desculpem-me os homens que acreditam que as meninas roliças se esmeram em sorrisos pelo contrapeso, mas o segredo é justamente o contrário. Elas é que estão seguras da sua beleza, ampla e não restrita a padrões ditados seja lá por quem. E sabemos que pessoas seguras e com auto-estima em dia geralmente são simpáticas, não se escondem atrás de atitudes defensivas e, consequentemente, sorriem mais. Não são sensuais por aprendizado ou pra chamar atenção, mas sim pela naturalidade com que sabem viver, sem culpa, o prazer de todos os desejos.

E as magras? Bem, pelas respostas masculinas, deu para concluir que, talvez, a exigência ou o perfeccionismo com que se cuidam para ter um corpo bonito e a seleção primorosa do que colocam no prato fazem-nas ser igualmente exigentes e seletivas na escolha de um parceiro. Ter vaidade e sentir-se bem é da natureza feminina, mas levar isso ao extremo pode deixar tudo meio sem gosto, incluindo aí a preferência por homens dietéticos, sem colesterol e sobrepeso, e, na hora da mordida… cadê o tempero? Pode ser isso ou nada disso? Realmente não dá pra saber.

Mas isso tudo é apenas teoria de um observatório (empírico, óbvio) e que foi montado sem puxar a brasa pra gordurinha de ninguém. Claro que minha “pesquisa” teve curta abrangência, já que foi realizada com um círculo pequeno de amigos e o mundo felizmente é grande, vasto e aceita todo tipo de gente. Portanto — e vou até colocar um negrito aqui — estou generalizando e toda generalização tem falhas abundantes. Estou dividindo uma sensação pessoal, reforçada por tempo de observação, e, como toda sensação (que é muito feminina, aliás), peca por carência de argumentação concreta. Tenho amigas magras muito bem acompanhadas, claro. E eu mesma sou casada e não posso ser considerada gordinha, embora precise confessar que sou como a grande maioria das mulheres: estou sempre correndo atrás de dois quilos a menos. No mínimo.

De todo modo, eu não poderia concluir esta pretensa “teoria” sem compartilhar também três das respostas que extraíram o melhor dos meus sorrisos – que não é um sorriso tão iluminado quanto o das amigas gordinhas, mas dá pro gasto:

F., casado, 40 anos, disse que sua resposta seria a mais piegas e sem graça do mundo. Mal sabe ele que esta é “a” resposta: “Sem dúvida que namoraria/casaria, desde que eu estivesse apaixonado por ela.”

R., casado e cuja primeira paixão foi por uma gordinha, respondeu que “tem que ter um rosto bonito ou singular, porque o rosto é a parte do corpo de uma mulher que se vê 90% do tempo, especialmente pra quem gosta de um bom papo.”

E, finalmente, a que mais me encantou foi de C., 35 anos, separado, que respondeu até com música: “amo tanto e, de tanto amar, acho que ela é bonita”.

Podem suspirar, meninas. Existem homens apaixonantes e apaixonáveis para todos os gostos. Resta saber se as mulheres têm essa mesma predisposição. O que me deixa com vontade de fazer outra pesquisa, agora com elas, para que me respondam a seguinte pergunta:

“Você aceitaria ganhar 5 quilos, se junto com eles viesse o homem dos seus sonhos?”

Será que obteríamos o mesmo número de sins? Mas, daí, já seria outro papo.


Publicada originalmente no Crônica do Dia.

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3 Comentários on crônica [O Borogodó das Gordinhas]

  1. Fiz uma grande confusão. Fui ler sua cronica por indicação da Zel, a quem conheci por indicação da Denize La Reina. Aí, deixei lá um comentário, dizendo que ia assinar o feed do blog, etc, e só depois vi que aquele não era o seu site. Então estou aqui, lendo o seu real blog, assinando o seu real fedd e lhe mandando reais beijos.

  2. Olha, aqui vai um comentário de uma homossexual que prefere MUITO as gordinhas.
    Elas são maiz exuberantes, mais alegres, têm, se fato, um sorriso largo e bonito, são mais malemolentes e sabem seduzir, sabem muito bem.

    =)

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